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Antes de o sol raiar
Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016 Enviar por e-mail Versão para Impressão acessos
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Nasci de parto natural pelas mãos da parteira de quem memorizei o sobrenome: dona Suenaga. Foi no dia 15 de dezembro de 1940. Era um menino franzino e não teria sobrevivido, se não fosse o leite de vaca trazido diariamente para complementar o leite materno. O produto vinha num caminhão que transportava toras de madeira da Fazenda de Adelino Torquato, amigo dos meus pais, para a área central de Mogi das Cruzes. Esta propriedade ficava no Bairro do Tapanhaú, a cerca de 30 quilômetros do centro urbano. Onde a gente morava, em Biritiba Ussu, já era considerado sertão. Tapanhaú era uma espécie de fim do mundo por causa da distância.

Ao lado de quatro irmãos – Hatue, Hidekazu, Shizuyo e Hissae –, nasci e cresci no campo. Como outros meninos, joguei futebol, empinei pipa, brinquei de bolinha de gude, fiz arte, levei bronca, sempre gostei de chocolate e de caqui. Como todo menino que vive na roça, aprendi a acordar com o canto do galo. Como muitos, ajudei a família na plantação de verduras, legumes e frutas. Na época, energia elétrica era coisa do futuro em Biritiba Ussu, assim como em tantas outras localidades periféricas da Cidade. Quando caía a noite, encerrando mais um dia de tarefas na escola e na lavoura, começava um curto, porém, proveitoso período de lazer. À luz de velas ou de um lampião, debruçávamos sobre um livro sorvendo as palavras, alinhavando as histórias, embarcando na magia proporcionada pela leitura, prazer que cultivo desde menino.

Se nem eletricidade havia, telefone era obra de ficção. Hoje, vejo maravilhado os avanços da tecnologia. Computador e suas variações, celular, internet, wifi... A gente tem o mundo na palma da mão. As informações chegam em tempo real. A comunicação é ágil. Jamais imaginaria tudo isso enquanto criança. Adoro os benefícios do mundo cibernético!

Sob o condão das redes sociais, tive recentemente a felicidade de reencontrar dona Mariquinha. Ela está com 104 anos de idade, tem uma memória prodigiosa e impecável lucidez. Dona Maria de Jesus Siqueira, a Vovó Mariquinha, carregou no colo o menino que fui e ajudou a lidar com aquele moleque travesso. Era o braço direito da mamãe Fumica, grávida do bebê a chegar, que se desdobrava para cuidar da Hatue, 7 anos, do Hidekasu, 5, de mim, com 3, de Shizuyo, de 1 ano, além dos muitos afazeres na casa de 12 pessoas e do trabalho pesado na roça. Assim, dona Mariquinha entrou em nossa família e se instalou em nossos corações.

Ao completar 76 anos de idade, dirijo-me a Deus com uma imensa bagagem de gratidão. Não tenho palavras para traduzir o quanto sou grato pela família formidável, ancorada na Elza, minha maravilhosa esposa, companheira de todo dia. Discreta sim, mas, verdadeira guerreira e legítima responsável pelo incomparável clã que constituímos, com muito amor, nos 40 anos de sólida união. Também me faltam meios de agradecer pelos amigos verdadeiros e pelo contínuo aprendizado. Vejo o tempo como um fiel aliado. Olho para trás e percebo o quanto os anos me fizeram bem. Não apenas pelas pessoas maravilhosas que cativei e cultivo a cada dia, mas também, pelas transformações que ajudaram a processar em mim mesmo.

Ganhei mais, muito mais paciência. E redobrei minha capacidade de compreensão dos outros e da vida. Ficou para trás aquele jovem irritadiço que explodia por pouco e cobrava sempre demais. De quem estava por perto e de si mesmo. Ele aprendeu a lidar com seu perfeccionismo respeitando o ritmo das pessoas. Passou a valorizar características preciosas que, antes, sequer enxergava de tão obcecado que estava em atingir as metas traçadas. O mundo fica melhor e mais belo quando a gente se permite ver mais do que o agora.

Isso não quer dizer perder o entusiasmo nem a identidade. Isso significa controlar o ímpeto e depositar energia no entendimento. É uma das dádivas do tempo. A gente ouve mais, fala menos e interage melhor. É verdade que a idade traz algumas limitações. Para mim, entretanto, os obstáculos trazidos são minúsculos. Sempre procurei cuidar bem do corpo e da mente. Talvez, minha dieta rica em hortaliças e frutas, seguida desde criança, seja meu pote de ouro conquistado antes do fim do arco-íris. A vida me tem sido generosa.

Se me permitem uma sugestão, não tenham medo de envelhecer. Rugas não ofuscam os tesouros que só um veterano consegue encontrar. O mais fantástico é que eles estão dentro da gente. Quando se conserva a alma jovem, a idade não pesa. Ela só agrega conhecimento, experiência e compreensão.

Começo um novo ano com a determinação de fazer dele um período ainda melhor e mais produtivo. Que o Senhor me permita ter sempre novos desafios, porque eles alimentam minha alma. E que, acima de tudo, mantenha o meu privilégio de ter ao meu lado tantos seres especiais – humanos ou não – que são a razão para acordar todos os dias antes de o sol raiar.
Junji Abe é líder rural, foi deputado federal pelo PSD-SP (fev/2011-jan/2015) e prefeito de Mogi das Cruzes (2001-2008).
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